quarta-feira, 10 de março de 2010

Um Pouco do Passado.- Série Manu




A Infância de Lya



Lembranças da infância iam passando como cenas de sua vida!


Lembrava-se da escada alta, imponente. Da cozinha, onde a mãe sempre estava fazendo doces ou cozinhando. E apesar de sempre sorridente, sua mãe, trazia uma tristeza indefinida, que ela não conseguia entender. Depois da cozinha havia uma sala, quase vazia, com alguns bancos compridos e uma mesa; e retratos antigos. Havia dois quartos que davam para a sala. O de Lya e Zazá, à esquerda, com apenas uma cama de casal. E o de seus pais, à direita, também com uma cama de casal. Na ótica de Lya, esse quarto escondia segredos perigosos e melancólicos. Da sala, também se podia passar a vendinha, onde seu pai sempre estava a fazer contas. Seu pai também parecia ter seus segredos secretos. Na cabecinha de criança tudo fica enigmático e aventureiro (risos). Às vezes ela observava-o. Ele, ficava horas a fio sentado, pensativo, olhando o nada. E vez ou outra, aparecia um freguês, em busca de querosene para lamparina, sal, açúcar. E outras coisas miúdas; e, sem trazer um tostão, sempre no fiado. E ele atendia com toda paciência. Mas à noite apareciam muitos compadres e vizinhos, que vinham para ouvir jogo no radinho de pilha. E também para tomar uma pinga e papear um pouco.


Lya brincava no quintal pequeno. Mas que aos seus olhos era enorme. E ali no seu quintal, distante uns cinqüenta metros do “rio Pardo” havia uma árvore alta, de tronco grosso, que dava umas frutinhas muito parecidas com jabuticaba, e que chamavam de maria preta Porém, elas só podiam chupar quando alguém as tirava com um bambu, pois o pé era muito alto. Na frente da sua casa havia um canteirinho de flores, feito por sua mãe. Com algumas folhagens e muitos cravos amarelos e vermelhos. Uma estrada bem grande passava na frente de sua casa. Era a estrada que vinha de Muniz Freire e ia para Iúna. E a casa de Lya ficava quase na divisa dos dois municípios, na localidade de Terra Corrida, onde, dizem que a terra correu um dia.


Seguindo pela estrada, sentido Muniz freire, uns cinqüenta metros depois da casa de Lya. Havia uma igreja, aonde ela ia sempre aos domingos e dias de reza. Elas também gostavam muito de brincar no coreto. O mês de maio era uma festa: sua mãe ensaiava a coroação, Lya vestia de anjo, porém nunca podia coroar, e se irritava com isso, fazia pirraça, ficava que nem “galinha de pescoço destroncado” Também, quem mandava ter voz de taquara rachada, assim quem agüentaria ouvi-la cantando?! Kkkkkkkkk Os anjinhos sempre ganhavam prendas como: “galhos de biscoitos e balas” (galhos cheinhos de biscoitos deliciosos e balas), pencas de mexericas e balas, balas, doces, etc.
Depois da coroação, formavam-se imensas rodas, de rapazes e moças, que brincavam e flertavam, em inocentes olhares. E os “anjinhos”, além de aumentar a roda, serviam para atrapalhar os possíveis namoros.


A igreja ficava do lado esquerdo e ao lado direito havia duas casas pequeninas, onde moraram, seus avós Cecília e Eugenio; em outra casinha mais para frente, a Tia Lita, depois a professora, os avós maternos Elmira e Durval, e outras pessoas, as quais sua lembrança não é capaz de fazer-se vingar no exato momento...


E bem perto de sua casa havia um enorme pé de mexerica, que Lya adorava subir, afim de pegar as maiores e mais suculentas. Logo depois da igreja, havia uma ponte sobre um ribeirãozinho, onde ela ficava horas vendo os peixinhos nadando. Ao lado direto da pontezinha, tinha um terreirão enorme onde se secava café; e também uma pequena escolinha onde Lya estudava com a irmã Zazá. Depois do colégio, havia um lugar o qual chamavam de quintal, onde tinha uma pequena casinha, cercada de muitas frutas e que Lya, Zazá, Luzlu, Lene, Caco e Nana adoravam brincar e pegar frutas: laranjas, mangas, goiabas, araçás, graviolas, biribas, ameixas, bananas. Frutas que eram café, almoço, lanche. E nem se preocupavam com a hora de voltar pra casa. E, o rio Pardo passava preguiçosamente bem ali e elas chegavam a lavar as mãozinhas nas suas águas. Sem atinar no perigo que corriam. E bem distante uns quilômetros havia a casa da viúva negra, da qual todos morriam de medo!


Perto da casa de Lya do outro lado da estrada havia um moinho, bem em baixo do morrinho da igreja. E lá de cima vinha a água que eles bebiam. Que era à força do moinho e também encanada para eles usarem. E na estrada sentido Iúna, distante uns cem metros havia uma ponte que levava a dois caminhos de sentido contrários, que margeavam o rio. Ao lado esquerdo e no sentido em que o rio corre, sem que na verdade ele corra, na terra que se dizia corrido, o rio parece é passear por entre suas margens, silencioso e calmo, ele segui rumo a Muniz Freire preguiçosamente... nesse lado as margens do rio pardo, havia a casa do senhor Francisco Vial e da dona Cenira, mulher de coração bondoso que sempre dava bolo as crianças quando apareciam lá para brincar. Era uma casa em meio a grandes pedras redondas, com um belo alpendre. Continuando a trilhazinha as margens do Pardo chegava-se a um regaço onde havia um pé de “coquinho meleca”, ao sopé da montanha e de um ribeirão e que Lya e Zazá adoravam passar por ali e catar os coquinhos, chupá-los, depois quebrar e comer. Mais em frente no sentido em que corria o rio havia a casa do senhor Guilherme. Pai da professora Madalena, da Margarida, e também  da Terezinha com quem elas brincavam de boneca. Porém, as bonecas mais bonitas tinham que ser sempre de Lya, se não fosse assim, fazia birrar. E como ninguém queria furar os tímpanos, cediam. Lya também se esbaldava com as bananas cozidas para os porcos, pegava umas e comia com melado. Hum, Delicioso! Ah se a saudade conseguisse trazer ao menos por segundos aquele gostinho de aventura misturado com gotículas de infância! Ah, com certeza ela se deliciaria eternamente! E essa nostalgia pudesse doer menos. Porém isso é impossível, por mais que cozinhe bananas e passe melado nelas, jamais serão iguais aquelas! Continuando o caminho subindo pela trilhazinha da  montanha, chegava-se a casa das sete mulheres, rsrs. Onde havia sei moças que eram um pouco briguentas, mas eram amigas de Lya e Zazá. Brigavam por ciúmes, e por querer brincar com elas, todas queriam ser as preferidas. Lá as meninas se divertiam muito, faziam muitas estripulias; comiam muito melado na casa da dona “Julinha”. E, brincavam no paiol de fazer roupinhas para os ratinhos, eca!


Voltando a ponte: se caminhássemos para o lado contrário, subindo a margem do rio Pardo, encontraríamos muitas outras casas. A primeira era do senhor Custódio. Que tinha duas moças bonitas e um menino chamado Marquinho; Depois a casa da dona Merci e do senhor Antonio. Pais da Nilcéia e Elenice, amigas de Lya e Zazá. Lá comiam muitas amoras de árvore; Mais adiante a casa do senhor João Debrande, onde havia muitos bichos, e lindos pavões. E bem mais adiante, depois de longa caminhada, em meio a mata, tinha uma fazenda com um enorme terreirão. Ali morava o ciganinho com sua família... Um dia apareceu em terra corrida ums ciganos, muito pobres. E uma das ciganas teve dois filhos gêmeos. Do qual um morreu e outro foi entregue para essa família o criar. História triste, porém bonita. Pois o ciganinho foi muito bem criado. Mas seus traços característicos o distinguiam dos outros meninos. Gostava de cavalgar, e seu jeito de falar era meio arrastado, os cabelos cumpridos, as brincadeiras...


Voltemos à ponte: agora sem atravessá-la vamos seguir sentido Iúna subindo as margens do rio Pardo. Andando-se uns dez minutos, havia um campo de futebol, aonde muitas vezes Lya e Zazá iam com a tia Nite para plantarem arroz as margens do rio. Mais adiante, estava à casa da senhora Rita, e a do gaguinho. Eles eram plantadores de tomate, e pessoas muito boas. Eram também irmãos do menino gaguinho Edilene e Lúcio. Um pouco mais a frente tinha a casa do Ailton e da Célia, que tinha três filhas: Rita, Kátia e Ilda. Perto da casa delas havia um barreiro, desses de barro branco, que se usava para passar em fogão a lenha ou nas casas. Era um barro molinho, de onde minava água o tempo todo e, que deixava Lya muito motivada a fazer travessuras. Lya e Zazá quase sempre iam para casa embarreadas e brancas como a neve! (risos)


Voltemos um pouquinho ao campo: Na estrada sentido Iúna, antes um pouquinho do campo, e no lado contrário do campo; ou seja, lado direito, havia uma estrada que era a mais percorrida por Lya. Pois essa estrada levava a casa de um senhor, que fora muito importante na vida dela. Subia-se uma estradinha de chão bem a pique, depois passava-se por uma matinha, e, uma descidinha pra chegar a casa da madrinha Etelvina. Naquele vale bem em baixo do morro do cediabrão, havia algumas casas. E no pé da serra, em meio a cafezais uma casa, que para Lya era encantada! E onde vivera lindos sonhos. Era a casa do senhor Francisco Mariano e de dona Zulmira. Lya era considerada como uma filha caçula, adotiva e muito amada por aquela família e que ela  considerava seu segundo lar.
E assim era o pequeno mundo de Lya, encantado, mágico e feliz!


Engraçado é que o rumo da vida da gente parece se repetir, parece-me que na verdade temos sim o destino, se não traçado, ao menos “rabiscado”  por Deus. E, com toda certeza, um rabisco mais que perfeito. Não sei se o destino se repete ou se ele é mesmo mágico, só sei que os planos de Deus são sempre os melhores em nossas vidas. O que nos falta na maioria das vezes é aceitá-los e segui-los.
Em meio a muitos anos passados Lya confronta a mesma situação. Porém agora é ela quem adota um pequeno bebe que de repente lhe surge no caminho... agora é a sua vez de retribuir o que já teve de amor, é a sua vez de gerar o amor em alguém que fora predestinado por uma “mãe de barriga” a ser um estorvo, um nada qualquer... O destino parece gritar-nos e ensinar-nos, nós que muitas vezes somos surdos, e,  tomando-lhe as rédeas, fingimos que somos “DEUS”...




2 comentários:

  1. Lindo blog amiga.
    aqui só encontarmos paz.
    Obrigada por vir...Estou a lhe seguir. Abraços M@ria

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  2. Acho você uma pessoa maravilhosa me identifico muito com as coisas que você escreve.Todo dia dou uma passadinha no seu blog.Leio com muita atenção suas poesias e crônicas.Um grande abraço
    nmhpk@yahoo.com.br

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